Petróleo Brent fecha acima de US$ 100 com exportações da região desabando 82% no semestre. Alta beneficia Petrobras mas pressiona combustíveis e inflação no Brasil.

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Kore • pt-BR
O barril de petróleo do tipo Brent encerrou o pregão de quinta-feira (23) em Londres a US$ 100,68, uma alta de 7% (US$ 7,04), atingindo o maior nível desde maio. O gatilho imediato foi o ataque dos houthis a dois petroleiros sauditas – Encelia e Layla – no Mar Vermelho, na 12ª noite consecutiva de bombardeios dos Estados Unidos ao Irã.
Mas o que realmente sustenta a escalada não é o incidente em si. É um colapso logístico muito mais profundo: as exportações de petróleo da região desabaram 82% no primeiro semestre, de 18,8 milhões de barris por dia e 370 cargas para apenas 3,4 milhões de barris por dia e 71 cargas, segundo cálculo da consultoria Wood Mackenzie divulgado pela Forbes.
O petróleo a três dígitos deixou de ser um cenário de risco para se tornar o preço de tela do mercado internacional. E isso produz um efeito duplo e contraditório sobre a economia brasileira.
A redução drástica dos embarques na região do Oriente Médio funciona como um estrangulamento da oferta global. Quando os carregamentos somem do mapa, o preço sobe mesmo que a produção ainda exista – é a incapacidade de escoar o óleo que aperta o mercado.
A sequência de hostilidades entre houthis, Irã e Estados Unidos tornou o Mar Vermelho uma rota cada vez mais perigosa. Os ataques a navios não são novidade, mas a persistência das ações militares, agora intensificadas, fez com que armadores e traders evitassem a região, redirecionando cargas ou simplesmente deixando de embarcar.
Os números da Wood Mackenzie mostram a dimensão do rombo: de quase 19 milhões de barris/dia exportados no início do ano, restaram cerca de 3,4 milhões. A oferta global perdeu um volume equivalente a mais de três vezes o consumo diário do Brasil.
Na mesma sessão, pela manhã, o Brent já operava a US$ 98,30 (+4,50%) e o WTI a US$ 90,14 (+3,81%), conforme registrou o InfoMoney. No fim do dia, o WTI subia 6,37%, a US$ 92,36, confirmando que o movimento não foi pontual.
Para a Petrobras, um barril mais caro significa mais receita e maior geração de caixa. A ação preferencial (PETR4) fechou o pregão de quinta-feira em alta de 0,87%, cotada a R$ 42,95, refletindo a percepção de que a companhia se beneficia diretamente da escalada das cotações internacionais.
O ganho, porém, não se distribui de maneira uniforme. Enquanto o acionista comemora, o consumidor brasileiro observa o risco de repasse para os combustíveis. A política de preços da estatal, atrelada às referências internacionais, transforma o choque externo em pressão nas bombas de gasolina e diesel.
Com o Brent acima de US$ 100 e o dólar comercial em R$ 5,08 (+0,33%), a paridade de importação se eleva de forma significativa, encarecendo derivados que pesam diretamente no custo de transporte e na cadeia produtiva.
O impacto do petróleo caro sobre a inflação é um canal clássico e rápido. A gasolina e o diesel respondem por uma fatia relevante do IPCA, o índice oficial de preços, que em junho (último dado disponível) subiu apenas 0,16%. Uma eventual necessidade de reajuste nos combustíveis pode interromper essa trajetória benigna.
O Banco Central mantém a Selic em 14,25% ao ano, ainda monitorando os núcleos de inflação. Um aumento persistente do petróleo coloca pressão adicional sobre o cenário, porque eleva custos de frete, alimentos (transporte) e insumos industriais, alimentando uma inflação de oferta que a política monetária não consegue combater diretamente – mas que obriga a autoridade a agir se contaminar expectativas.
A ambiguidade é completa: a alta do petróleo engorda as receitas da maior empresa brasileira, ao mesmo tempo que corrói o poder de compra das famílias e adiciona lenha à inflação num momento em que o país ainda busca consolidar a desaceleração dos preços.
O barril acima de US$ 100 voltou à tela em um contexto em que a geopolítica estrangulou a oferta de forma muito mais intensa do que os bombardeios sugerem. Enquanto a logística do Oriente Médio permanecer bloqueada e os ataques a navios não cessarem, o petróleo tende a operar em patamar elevado, mantendo o Brasil nesse desconfortável equilíbrio entre receita e inflação.